quarta-feira, 30 de março de 2016

Fofoqueiro diplomado

Créditos na imagem


"Seu fofoqueiro!". Estou acostumado com a qualificação que, para a maioria das pessoas, soa como ofensa. Em resposta, afirmo:
         - Tens razão! Afinal, sou um fofoqueiro diplomado e remunerado! - referindo-me à situação de jornalista profissional formado na Unisinos no longínquo 1985 que é meu ganha pão desde os 16 anos.
         Em tempos de radicalização - um homem de verde-amarelo foi visto depredando um semáforo só porque estava vermelho! -  a ânsia em contar "novidades" transcende o bom senso. Este comportamento é até compreensível, principalmente em decorrência da velocidade dos fatos.
         A informação nova envelhece em minutos, tamanha a intensidade dos dias recentes vividos na ilha da fantasia, conhecida como Brasília.
        
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         Há séculos que a troca de notícias "informais" - injustamente denominada de "fofoca" - é um esporte nacional. Este processo de distribuição de novidades envolve simpatias e antipatias, reações típicas das relações humanas.  Se o protagonista do "causo" for uma pessoa das nossas relações, é comum minimizar seus erros e exagerar nas cores quando o assunto for suas qualidades.
         A vida é um eterno "telefone sem fio", uma das brincadeiras infantis mais antigas do mundo, cada vez mais atual. Sentadas no chão, em círculo, as crianças ouvem, ao pé do ouvido, uma frase ou notícias do vizinho, e passam adiante o conteúdo. No final, o último integrante fala em voz alta o que compreendeu. Diante da frase original, proferida pelo autor, todos caem na risada, tamanho disparate em que uma e outra.
         As revistas de circulação nacional fazem uma espécie de "telefone sem fio", mas em dimensões continentais, com consequências devastadoras. A revista Veja, de maior circulação e repercussão no Brasil, solapou reputações até então inatacáveis. Cito duas: o gaúcho Ibsen Pinheiro, então presidente da Câmara Federal, e Alceni Guerra, que era ministro da Saúde. Sem falar do episódio da Escola de Base, de São Paulo.
                                              
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         Foram dois escândalos que soterraram biografias ilibadas que se desmancharam assim que a publicação chegou às bancas. Hoje, os que alimentaram estes e outros boatos corrosivos à moral das vítimas clamam por "punição à imprensa golpista" diante dos escândalos via Petrobras.
         São visões diferentes, conforme a ótica de cada um. Homens, mulheres, jovens, aposentados, autoridades de todas as raças, credos e sexos. Todos "trocam informações" constantemente. Ampliam virtudes, suavizam defeitos, carregam nas cores, alteram detalhes e que, no frigir dos ovos, podem transformar heróis em vilões. E vice-versa.
         Diplomado ou não, o fofoqueiro é um personagem que vive dentro de todos nós. Mas que é odiado quando interpretado pelos outros.

terça-feira, 22 de março de 2016

O mundo não é cor-de-rosa

          

Foto: Eflon // Flickr


           As frustrações amadurecem, apesar da dor. Nos primeiros anos de vida é comum os pais evitarem contratempos, poupando os filhos de  todo tipo de sofrimento. Este excesso de zelo e amor leva à superproteção, produto do excesso de cuidados que transformam crianças num poço de egoísmo, incapazes de conviver com os amiguinhos.
         O apoio incondicional a todo tipo de comportamento dos filhos levou o surgimento de uma geração incapaz de lidar com perdas, decepções e de  interagi com as pessoas que têm pensamentos contrários. Estudar em bons colégios, vestir roupas de grife e viver em função do consumismo criou indivíduos que se acham fadadas ao sucesso obrigatório.

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         Estes jovens esquecem que é preciso ralar muito para alcançar êxito na vida. Nascer em berço dourado não é garantia de triunfo se não houver cobrança, limites e compromissos. O excesso de tecnologia gera uma contradição, afinal, não existe informação inacessível. Tudo é alcançável, mas falta competência para enxergar nas entrelinhas, descobrir que nem tudo é feito de atalhos.
         "A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada", afirma a jornalista Eliane Brum, brilhante analista do comportamento humano, amiga e ex-colega de redação do jornal Zero Hora. Sob o título "Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua", a cronista natural de Ijuí analisa com realismo o cotidiano e lamenta que muitos jovens acreditam que os pais deveriam garantir a felicidade a seus filhos.

                                     
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         No texto, ela questiona a relação pais e filhos que muitas vezes é permeada de uma fantasia de vida perfeita, zero de compromisso e certeza de felicidade. "É pelos objetos do consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e o s filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando", adverte.
         O resultado deste festival de equívocos são pais e filhos angustiados que, apesar de conviverem diariamente, se desconhecem porque jamais falam de temas que gerem conflito. O "teatro", mantido por anos dentro de casa, produz uma vida artificial que não prepara para superar os problemas, vencer obstáculos, conviver com frustrações e absorver perdas inerentes à vida adulta reserva.
         O mundo cor-de-rosa protagonizado nas redes sociais, no artificialismo de amizades sem contestação, inexiste. Mas nem todos os pais gostam de revelar isso a seus filhos, com resultados desastrosos.
         O texto de Eliane Brum pode ser acessado na íntegra em http://www.portalraizes.com/28-2/,         

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Os personagens da vida

pixabay.com


       Não raro uma dúvida me assalta: como será o meu desempenho como marido, pai, amigo e profissional? É uma tarefa complexa. Não apenas pela diversidade de funções, mas pela incapacidade de julgar com imparcialidade o que, cá entre nós, é impossível. Autocrítica é fundamental, mas missão quase impossível. Já tentei um exame, digamos, técnico, mas jamais consegui concluir a tarefa. Mas vamos lá, tentar começar o ano vencendo este desafio.
         Como marido, sou muito enfático, deixando de lado o conselho ministrado pelo meu falecido pai:
         - Casamento é a arte de se fazer de surdo - ensinava o velho Giba.
         Confesso que isso é impossível para alguém que adora falar. Além disso, estamos falando em sentimento, subjetividade, impulsos. A "absolvição" do ser amado, para manter a relação sadia, quase sempre é baseada na célebre frase de um general que jamais lembrarei o nome:
         - Perdoe seus inimigos. Mas esqueça de seus nomes!
         Em resumo, sempre restam ressentimentos, um complicador para a paz no lar.

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         Gosto mesmo é do meu desempenho como pai. Sou amigo, sempre, mas um grande cobrador. Sou solidário, mas não tolero falta de respeito, reincidências nefastas e mentira. Não sou sovina e costumo incentivar as mais absurdas iniciativas dos filhotes.
         Em termos de amizade, mantenho um punhado de afetos que são religiosamente cumprimentados no dia do seu aniversário e nas festas de final do ano. Gosto de telefonar para manifestar a alegria de ter alguns fiéis afetos há mais de 30 anos.
         Na área profissional traço brigas irreconciliáveis com meu atraso tecnológico, déficit que tento reduzir e que gera insegurança, outra marca registrada deste jornalista de 55 anos. Tento compensar estas limitações com esforço permanente de atualização do dia a dia, ligado ao rádio, à leitura de jornais, revistas e zapeando sites de informação.
        
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         Redijo colunas em jornais de cinco cidades gaúchas; Se trata de uma espécie de divã para compartilhar experiências que considero divertidas ou de alguma maneira interessante. Não é uma tarefa fácil, afinal, o cronista não conhece seus "clientes", o que às vezes gera mal-entendidos, mensagem virulentas fruto de interpretações diversas da intenção original do autor.
         Ao longo da vida interpretamos inúmeros personagens.
         Às vezes não estamos preparados para um desempenho à altura da expectativas nutrida por familiares e amigos. Com o tempo, porém, a experiência fornece o molho necessário para tornar a vida um prato palatável que desperta, a cada amanhecer, renovado apetite.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Mulher pelada




"Ver mulher pelada" era um sonho para quem foi piá/adolescente nas décadas de 70 e 80, como eu, nascido em 1960. As revistas, contrabandeadas por amigos mais velhos ou que traziam dos Estados Unidos exemplares da Playboy, eram soluções impensáveis para a maioria.
         Existiam também  livros de bolso, recheados de cenas calientes, ricas em detalhes que deixam a piazada alvoroçada. Páginas e páginas de "preliminares", alimentavam a imaginação numa fábrica de fantasias picantes.
         Obras de Cassandra Rios também circulavam, mas eram bastante raras.

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         O grande sonho era completar logo 18 anos, assim poderíamos assistir aos filmes "de mulher pelada". Naquela época existiam fiscais do Juizado de Menores. Eles perambulavam pelas salas escuras dos cinemas, festas, bailes, bares, de olho naqueles que queimavam etapas. Ser flagrado era um grande fiasco porque submetia os pais a um vexame de proporções municipais.
         Em Arroio do Meio - cidade onde nasci e passei minha adolescência - eram cerca de 5 mil habitantes. Domingos à noite havia sessão dupla e frequentemente eram exibidos filmes "impróprios para menores".
         Assim que os cartazes eram afixados no hall do cinema começávamos a imaginar o roteiro, ricos em detalhes, seduções, nuances libidinosas. Imitávamos a voz do galã e os mais ousavam forjavam gemidos femininos de prazer.
                                              
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         Vera Fischer, Sônia Braga, Nicole Puzi, Matilde Mastrangi, Aldine Müller, Sandra Barsotti, Angelina Muniz, Sandra Bréa, Helena Ramos, Zaira Bueno, Adele Fátima, Selma Egrei, Lucélia Santos... nomes que faziam suspirar. Ver um destes talentos brasileiros - ou mais de um - em destaque no cartaz era garantia de "filme adulto" e muita emoção pela frente.
         Ainda "menor" consegui assistir a alguns filmes, graças à amizade forjada com um arrendatário do Cine Real, de Arroio do Meio. O acesso era cercado digno de uma trama de suspense, pontilhado de perigos, manobras e sustos.
         O acesso ao mezanino só era autorizada quando iniciava a exibição do Canal 100 - com os gols dos principais jogos de futebol do país - e as luzes fossem desligadas.
                                     
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         Num canto escuro, sem ninguém por perto e quase sem respirar (de medo), grudava os olhos na telona. O noticiário, os gols e os trailers pareciam intermináveis até começar o "filme proibido" que, em muitos trechos, me deixava vexado. A parte ruim da burla à lei era a necessidade de abandonar o "local do crime" antes do final para fugir dos fiscais que às vezes se postavam junto à saída.
         Confesso que nem sempre compreender o "enredo", mas isso era secundário. Bom mesmo era encontrar a gurizada e me gabar de ter assistido ao filme, caprichar nos detalhes, exagerar bastante e sair com pinta de adulto.
         "Como é  bom ser adulto", pensávamos inocentemente...

          

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Brasil, verão 2016

UNB Agência
     
         Saio de casa todos os dias às 7h, o que permite acompanhar as mudanças de comportamento de acordo com as estações do ano. Há poucos dias observei dois fenômenos típicos desta época do ano.
         Primeiro era o movimentação em torno das escolas que sediavam provas do vestibular da UFRGS. Gurias de short jeans e piás com bermudões de fundilhos caídos e camisetas regata (ou "de física", como se dizia na minha adolescência) marcaram a paisagem. Também se destacavam os pais, aflitos, mas obrigados a se conter. Afinal, acompanhar o filho é "um mico", imagine mostrar hesitação.
         É um momento de grande estresse onde toda família sofre a partir da escolha da faculdade a ser buscada. É desgastante porque a gurizada atravessa uma fase de incertezas, alterações de humor, dificuldades em eleger as prioridades para o futuro.
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          Outro fenômeno desta época do ano é a multiplicação de praticantes de caminhadas de rua. A chegada do verão traz a exigência de uma estética afinada do corpo, o que impõe urgência para fazer "sumir" os quilos a mais.
         A cintura avantajada, escamoteada no frio pelas roupas pesadas, precisa ser reduzida sob pena de comprometer as fotos nas redes sociais. No caso as mulheres é motivo suficiente para virar chacota entre as "amigas" de língua ferina com dedos ágeis na digitação de comentários desairosos do Facebook.
         As academias - assim como as ruas -ficam lotadas a partir de setembro para chegar ao verão sem constrangimentos. Um amigo costuma dizer que o público feminino das academias se dividem em dois grupos:
- São aquelas que não precisam e as outras... que não adianta!
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          Longe da maledicência que permeia o esporte nacional da fofoca, é notório que prestar vestibular e lutar contra os quilos em excesso exige grande dedicação para chegar aos objetivos. Os jovens enfrentam uma concorrência feroz, afiada em cursinhos ou aulas particulares.
         Já as barriguinhas salientes entram numa competição com alimentação especial, exercícios dolorosos, mudanças radicais de hábitos e jejum monástico. Num país tropical onde ser honesto se confunde com ingenuidade, o resultado do vestibular e do corpo sarado pode ser determinante para um futuro promissor.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Irmãos brigam!



Em família, mais tradicional que Natal e Ano Novo é a briga entre irmãos. Não importa a quantidade de filhos que habitam a casa. A tarefa de apartar discussões fomentadas por mesquinharias, alegações de um passado distante ou velhas rusgas do jardim da infância constitui exercício de permanente paciência para pais/mães.
         Com o amadurecimento emocional, os atritos diminuem, mas basta uma faísca de ironia para que velhos argumentos brotem, mesmo levados com bom humor. Meus filhos, com 20 e 21 anos, adoram "inticar-se" mutuamente, numa planejada ação para deflagrar um inevitável entrevero verbal.

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         Minha filha, Laura, a mais velha, garante que o irmão foi deixado numa caixa de papelão diante da porta da nossa casa.
         Trata-se de uma versão bastante comum empregada na esgrima entre irmãos nos mais diversos lugares do mundo.
         Já Henrique, o caçula, cujo arsenal de argumentos é imensurável, não fica para trás. Com ar de deboche, dispara.
         - Foi tu que foi deixada por alguém que não aguentou teu temperamento e mau humor. Afinal, temos um vídeo VHS com todos os detalhe do parto da mãe. E no final da gravação eu apareço sorridente saindo da barriga dela! É prova irrefutável!

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         É o suficiente para desencadear uma troca de farpas que só termina com a intervenção do alto comando da casa. Ou seja, através da mão firme da mãe!
         Administrar o conflito entre os filhos é uma cansativa obrigação dos pais que pretendem criar herdeiros comprometidos com princípios humanos básicos. Como solidariedade, perdão, paciência, reciprocidade, bom caráter.

         As brigas entre os filhos devem ser toleradas, mas vigiadas para que não se transformem em empecilhos para que a tolerância seja estimulada como preventivo para suportar os reveses da vida

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O elevador do pavor


Foto: Vmiramontes

         Quando vejo a gurizada hipnotizada pelos jogos eletrônicos, sem desviar os olhos do smartphone ou da tevê nem para comer, lembro da minha infância. É inevitável! Admito tratar-se de "coisa de velho". As épocas são distantes, muito diferentes e não existe parâmetro de comparação. Mas voltar no tempo é uma reação instintiva.
         Nasci em 1960, o que dá bem a dimensão da distância que separa as épocas. Coisa de uns 40 anos. Entre tantas brincadeiras, uma - bastante original, modéstia à parte - ficou marcada para sempre. Antes, porém, é preciso localizar no tempo e no espaço o momento em que ocorreu o episódio.
         Nasci no interior de Arroio do Meio, a Pérola do Vale do Alto Taquari, à época com 5 mil habitantes. Há seis quilômetros dali localiza-se a de Lajeado, autointitulada A Capital do Alto Taquari, centro comercial e empresarial da região.      

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         Lajeado também ostenta o título de primeira cidade das redondezas a possuir um edifício equipado com elevador. A notícia provocou um alvoroço geral.
         Depois de alguns meses da abertura ao público, o edifício comercial se transformou em ponto turístico. Eu e minha irmã, Neusa, apelamos às primas Tânia e Mara Kirsch para viabilizar o contato com o "transporte vertical"  que apavorava alguns e maravilhava outros.
         Numa tarde ensolarada encontramos as primas e partimos para o moderno edifício. A primeira surpresa ocorreu ao constatar o tamanho do prédio. Não lembro quantos andares , mas era algo inusitado para nós que morávamos "no interior do interior".
         A primeira "viagem" de elevador foi marcada pelo medo.
                                                                                                                                                                oxoxoxoxoxoxoxoxoxox

         A cada ruído, desde o fechamento da porta, tudo era susto e pavor... muito pavor! Concluída a primeira chegada ao térreo tomamos gosto (e coragem!) para novas aventura que se repetiram ao longo da tarde. Perdi a conta de quantos passeios fizemos com o primeiro elevador que conheci na minha vida.
         Tudo corria bem, até que, lá pela oitava ou nova subida, o porteiro do prédio ficou indignado e disparou o botão do alarme que ficava na portaria, fazendo o veículo frear entre dois andares. A gritaria foi grande. Havia outras pessoas conosco, o que só aumento o pavor, o choro e as lágrimas.
         Depois de alguns segundos, o elevador desceu suavemente "até o chão". Sem para trás chegamos à calçado no lado oposto ao prédio.
         O susto foi tão grande que por detalhe não fomos atropelados por um táxi que completou a tarde de sustos, medo e xingamentos.